27 de janeiro de 2011

23 de novembro de 2010

To infinity and beyond (NOT ANYMORE)

Tenho medo de andar de avião, confesso.  Por mais estudos  e estatísticas que se  façam a dizer  que é o transporte mais seguro do mundo, não deixo de sentir um friozinho na barriga mal ponho os pés dentro daquele cubículo. Pôr um bicho daqueles a 11 mil pés de altitude tem que se lhe diga e, apesar das probabilidades de acidente serem ridiculamente baixas, elas existem. Mesmo na “TAP, membro da Star Alliance” – como se as estrelinhas a mais me servissem de consolo.  
Lá em cima, passava o dia todo, se fosse preciso. O problema são as descolagens e as aterragens. Aquela sensação na barriga  ao deixar de sentir os pés é horrível. Depois dou por mim a olhar para os motores, a ver se algum deles por acaso desatou em chamas.  Até chegar lá acima e ficar direitinho, é um aperto no coração. Depois, o único incómodo são aquelas pessoas que mal ouvem o apitinho de desapertar o cinto, desatam aos passeios no corredor, tal e qual numa promenade. Dou por mim a pensar o que será de tão urgente para andarem de um lado para outro naquele espaço de 30 metros quadrados.
À minha propensão natural para ter medo de tudo e mais alguma coisa, juntaram-se algumas más experiências, e também o facto de ser obrigada a aterrar naquele que acontece ser um dos aeroportos mais perigosos da Europa. Ou estes dois juntos, que é o mais frequente. Daí que cada Natal, Páscoa, Carnaval, verão ou aniversário na Madeira, seja celebrado como se  fosse o último, não vá o diabo tecê-las.
Apesar de sofrer muito nas duas horas de viagem que passo naquele tubo de alumínio, fios eléctricos e gasóleo, mantenho a minha aflição só para mim. Às vezes com muito suor e alguns suspiros, mas não passa disso. Não consigo manter o sorriso das assistentes de bordo, mas também não desato em rezas e em conversas sobre azares passados. Não gosto de alarmar outras pessoas. Mas infelizmente, o resto dos 90% dos passageiros daquele avião com medo de voar não acham o mesmo.  Acham  que chamar a assistente de bordo sempre que ouvem um barulhinho é a coisa certa a fazer. Como se se de facto houvesse um problema, ela lhes fosse dizer. Ou então saem-se com comentários na aterragem como: “já estamos tão baixinhos  e o aeroporto ainda é lá ao fundo.. olha ali as casinhas tão perto!”. Isto não é saudável para quem vai ali a sofrer em silêncio. Meus caros, se têm medo de voar e não conseguem estar calados, peçam dois ou três copos de vinho tinto (como já vi acontecer) e isso passa num instante.
                O medo dos outros alimenta o meu medo. De tal maneira que quando o avião está prestes a aterrar, penso sempre que vai falhar a pista. Depois de estar no chão, penso que não vai travar a tempo. E depois de estar em casa, sonho que vou cair na próxima viagem. Aquele bocadinho de metal, apesar de ser uma extraórdinária obra de engenharia, tira-me anos de vida. Gostaria de agradecer à aeronáutica por nestes três anos de viagens e sustos constantes, me ter destruído o sonho de viajar pelo mundo inteiro, enquanto jornalista conceituada.



Crónica para AJ